domingo, 20 de outubro de 2013

Globalização e Saúde




Globalização e Saúde
Claiton Agnaldo Ribeiro Santos


“Vivemos num mundo confuso e confusamente percebido. Haveria nisto um paradoxo pedindo uma explicação? De um lado, é abusivamente mencionado o extraordinário progresso das ciências e das técnicas, das quais um dos frutos são os novos materiais artificiais que autorizam a precisão e a intencionalidade. De outro lado, há, também, referência obrigatória à aceleração contemporânea e todas as vertigens que cria, a começar pela própria velocidade. Todos esses, porém, são dados de um mundo físico fabricado pelo homem, cuja utilização, aliás, permite que o mundo se torne esse mundo confuso e confusamente percebido. Explicações mecanicistas são, todavia, insuficientes.
E a maneira como, sobre essa base material, se produz a história humana que é a verdadeira responsável pela criação da torre de babel em que vive a nossa era globalizada.”
SANTOS, Milton


No livro Globalização: As consequências humanas, do escritor e sociólogo polonês Zygmunt Bauman há um conceito de globalização como  a ordem do dia, algo que impacta a todos de maneira igual, sendo que para alguns é motivo real para felicidade, para outros um infortúnio. Porém, por trás deste processo irreversível há muito mais do que pode o olho ver. Há evidentemente uma polarização cultural, financeira e ideológica, ele cita por exemplo o processo paradoxal da globalização: “A globalização tanto divide como une; divide enquanto une” (BAUMAN, 1999, p. 8).Bauman, ainda menciona e compara a criação dos mapas(como uma espécie de batalha para reorganizar o espaço e de controle) pelos poderes modernos ao modelo Panóptico concebido por Michel Foucalt, em que o filósofo fala sobre a criação de um espaço artificial com o objetivo de monitorar os indivíduos e manipular as relações sociais e a relação de poder. Os observadores viviam no mesmo espaço do que os supervisionados, porém em situações opostas. “A visão do primeiro grupo não é obstruída, enquanto o segundo precisa agir num território de névoa, opaco” (BAUMAN, 1999, p. 41)
No artigo Globalização e saúde global de Giovanni Berlinguer, 1999, o escritor faz uma análise acerca desta relação entre a globalização e a questão dos cuidados de equidade e saúde e propõe um outro questionamento: “A verdadeira pergunta, por isso, não é se a multiplicação das relações internacionais e a maior independência são um bem ou um mal e se devem ser favorecidas ou cerceadas. A pergunta é outra: Qual a globalização, para que fins, em que rumo?”
Em resposta ele traz alguns apontamentos como por exemplo o entendimento de saúde com bem-estar individual, como interesse coletivo e como condição essencial de vida em liberdade. Outro exemplo que advém do processo da globalização, é o fato da unificação microbiana no mundo, ou seja é o livre trânsito de micro-organismos de um continente para outro, sem em nenhum momento considerar as diferentes condições de ambiente, de nutrição, de organização social e cultural, de presença ou ausência de vetores biológicos das doenças transmissíveis. Houve portanto, desigualdades epidemiológicas importantes entre o velho e o novo mundo, observando suas especificidades, cultura, e principalmente sua situação econômica.
Importante relembrar que o advento da globalização não é algo que aconteceu nas três últimas décadas do século XX, ele vem acontecendo desde o século XVI período em que houve os grandes descobrimentos e expansão das colônias europeias pela América, Ásia e África, era um momento de expansão econômica em busca de novos territórios e mercados, também de subjugação dos territórios conquistados. Não obstante as distâncias percorridas, os colonizadores levaram consigo, sua cultura, hábitos alimentares e de vestuário, religião e inclusive suas doenças.
No decorrer dos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX houve um avanço cronológico da globalização, porém é no final do século XX que se estabelece um processo radical de globalização, com o final da “Guerra Fria” que culminou na queda do muro de Berlim (como marco), em 1988. Através deste ato simbólico foi decretado o encerramento de décadas de disputas econômicas, ideológicas e militares entre o bloco capitalista, comandado pelos Estados Unidos e o socialista liderado pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Paradoxalmente com o final da divisão do mundo, em dois territórios políticos, inicia-se um processo de abertura econômica mundial.
A partir do final dos anos 90, o processo que até então “respeitava” uma  cronologia histórica, de um certo ponto estável, demonstra um avanço até então nunca percebido, quer seja pelo avanço das comunicações, quer seja pelo novo modelo de transporte e logística. Há a privatização da economia e minimização do papel do estado, há mega fusões de grandes empresas dentro do próprio país e entre países, queda das barreiras comerciais protecionistas, há a internacionalização das economias e estabelece uma desigualdade social que fere o walfare state, uma vez que os países do dito primeiro mundo, submetem as economias dos países pobres ou em desenvolvimento, é uma prática algoz onde os países ricos entram com o machado sob o nome de tecnologia, estratégias mercadológicas, industrialização, know-how, e os países pobres com a cabeça sob o nome de commodities, empobrecimento da população, perda da capacidade de autonomia e crescimento. Segundo Paulo Marchiori Buss, em seu artigo Globalização, pobreza e saúde, “o processo de globalização atual está produzindo resultados desiguais entre os países e no interior dos mesmos. Está criando riquezas, mas são demasiados os países e as pessoas que não participam dos benefícios [...]. Muitos deles vivem no limbo da economia informal, sem direitos reconhecidos e em países pobres, que subsistem de forma precária e a margem da economia global. Mesmo nos países com bons resultados econômicos muitos trabalhadores e comunidades têm sido prejudicados pelo processo de globalização.”
Não obstante os avanços na medicina e cura para muitas doenças, o paradoxo estabelecido pela  globalização em relação à  saúde, é excludente e estratifica a população, pois ainda que a denominação generalista seja globalização ela está em si muito distante de sua proposição, haja visto a  exclusão de países pobres na aquisição de tecnologias para o desenvolvimento de antibióticos e vacinas, privatização dos serviços de saúde e seguridade social e a brusca redução de investimentos estatais nos programas de saúde.
Na atualidade vivenciamos intensos avanços referentes às descobertas científicas para a cura de diversas doenças, pois o advento da globalização trouxe esses avanços como reflexo positivo, uma vez que integra países, aproximam estudiosos e cientistas, impulsiona o desenvolvimento de equipamentos mais modernos para que sejam realizadas novas  descobertas, novos medicamentos e novo instrumental cirúrgico/diagnóstico. Em contrapartida a comercialização destes produtos, têm gerado lucros exorbitantes aos países detentores de capital e tecnologia, ou seja, países ricos, os quais investem parte do lucro obtido com a venda dos produtos oriundos de seus laboratórios em novas pesquisas, novos medicamentos, novos instrumentos...
Hoje percebe-se, na saúde, alguns exemplos que tornaram-se intrínsecos à globalização como simples vacinas que imunizam populações inteiras de doenças graves, a cura do câncer em fase inicial e até a expectativa da cura definitiva desta doença. Isto só tornou-se possível devido o advento da globalização, uma vez que as informações são transmitidas “in time” e que cientistas e pesquisadores mantém trocas de tecnologias entre seus países, porém não há como não mencionar o fato de que os detentores de patentes de medicamentos, ou seja, os grandes laboratórios estejam, casualmente concentrados nos países ricos, e os maiores compradores sejam os países pobres; ou ainda, os medicamentos, o tratamento e os diagnósticos de alta tecnologia estejam a disposição somente a quem pode pagar muito por eles.
Vejamos então, temos de um lado  indústrias farmacêuticas poderosas, indústrias detentoras de equipamentos diagnósticos de alta tecnologia, bancos e porque não as telecomunicações, situados na maioria das vezes na Europa e América do Norte, as quais desenvolvem e vendem seus produtos aos demais países, de outro lado temos um grupo de países pobres, em desenvolvimento, emergentes ou outra nomenclatura, caso haja. Esse comércio, como citei anteriormente, gera um trânsito financeiro absurdamente alto e tem parte dele revertido em novas pesquisas, e portanto novos produtos, entretanto somente que usufrui dos benefícios advindos das novas tecnologia, são geralmente as populações dos países ricos, ou ainda, quem puder pagar por elas no resto do mundo.
Segundo Jomo Sundaram, secretário-geral adjunto da ONU em citação no livro "Flat World, Big Gaps" (Um Mundo Plano, Grandes Disparidades, em tradução livre), “ Houve uma tremenda liberalização financeira e se pensava que o fluxo de capital iria dos países ricos aos pobres, mas ocorreu o contrário", citou ainda, “A desigualdade na renda per capita aumentou em vários países da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) durante essas duas décadas, o que sugere que a desregulação dos mercados teve como resultado uma maior concentração do poder econômico”.
Concluo esta resenha temática com a percepção de que a Globalização em relação à Saúde é boa, porém somente a alguns, pois os “outros” quiçá ouviam falar dela. Ela fora ao longo das últimas décadas o fator que desencadeou e acentuou grandes desigualdades sociais e concentração de poder econômico. Encerro com um trecho da música Nos Barracos da Cidade de Gilberto Gil de 1985:

“Os lucros são muito grandes e ninguém quer abrir mão
E mesmo uma pequena parte já seria a solução
Mas a usura dessa gente já virou um aleijão

Gente estúpida!
Gente hipócrita!”
  


                          
Referências Bibliográficas

BAUDOT, Jacques. Flat World, Big Gaps. Zed Books Ltd. 2007
BAUMAN, Zygmunt. Globalização: As conseqüências humanas. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor. 1999.
BERLINGUER, Giovanni. do artigo Globalização e saúde global. Scielo. 1999
BUSS, Paulo Marchiori. Do artigo Globalização, pobreza e saúde. Ciênc. Saúde Coletiva. Scielo. Vol.12. nº6. Rio de Janeiro. Nov./Dec. 2007

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização, do pensamento único à consciência universal. 6ª edição. Editora Record. Rio de Janeiro.  2001

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Protagonismo!

Este vídeo ilustra quando um simples gesto(aos nossos olhos), pode impactar de forma impressionante outros tantos, portanto acredito que há muita semelhança com a Saúde Coletiva, com a figura do sanitarista. Sejamos, portanto, os protagonistas e saiamos da zona de conforto,  coloquemos a mão no bolso(nossos saberes) e lancemos moedas na cartola(sistema de saúde).
Vejamos a partir deste gesto quais serão as conquistas aos cidadãos, acredito, pois, que ouvirão música de boa qualidade! 








domingo, 13 de outubro de 2013

Consumo Sustentável

http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/publicacao8.pdf



Cidadania e Consumo Sustentável
Nossas escolhas fazem a diferença


“ O aumento no consumo de energia, água,minerais e elementos da biodiversidade vem causando sérios problemas ambientais, como a poluição da água e do ar, a contaminação e o desgaste do solo, o desaparecimento de espécies animais e vegetais e as mudanças climáticas. Para tentar enfrentar estes problemas surgiram muitas propostas de políticas ambientais, como consumo verde, consciente, ético, responsável ou sustentável. Mas o que significa estas expressões? E o que elas têm a ver com o tema cidadania? ” ¹

Inicio primeiramente conceituando consumo, consumismo, consumo sustentável e cidadania, a fim de estabelecer suas diferenças e por fim sua relação.
Consumo² significa compra e venda de produtos, o que se gasta, ingestão, utilização, gasto, uso, emprego. Consumismo³ significa consumo exagerado e supérfluo de bens. Consumo Sustentável4  envolve a escolha de produtos que utilizaram menos recursos naturais em sua produção, que garantiram o emprego decente aos que os produziram, e que serão facilmente reaproveitados ou reciclados. Significa comprar aquilo que é realmente necessário, estendendo a vida útil dos produtos tanto quanto possível. Cidadania5 - o termo cidadania tem origem etimológica no latim civitas, que significa "cidade". Estabelece um estatuto de pertencimento de um indivíduo a uma comunidade politicamente articulada – um país – e que lhe atribui um conjunto de direitos e obrigações, sob vigência de uma constituição. Ao contrário dos direitos humanos – que tendem à universalidade dos direitos do ser humano na sua dignidade –, a cidadania moderna, embora influenciada por aquelas concepções mais antigas, possui um caráter próprio e possui duas categorias: formal e substantiva.
A partir destes conceitos e observando o conjunto de informações contidas tanto na cartilha sobre consumo sustentável, quanto nos relatos trazidos pelos participantes dos fóruns, observo a transformação e inversão no consumo dos bens, que num determinado momento eram de subsistência, ou seja,  para manutenção básica das necessidades diárias e em outro, na atualidade, torna-se um consumo voraz de coisas que não precisamos( por necessidade básica ) banalizando esta prática mercantil. Este consumismo vai muito além do ato de comprar  supérfluos, pois ele é excludente, estratificador e gerador de desigualdades sociais quase sem precedentes históricos. A sociedade de consumo impulsiona os indivíduos a comprarem mais e mais com pretextos de aceitação e inclusão nos mais diversos grupos sociais. Para suprir esta demanda crescente de consumo, a indústria investe cada vez mais em tecnologias para produção de produtos em massa, ou posso dizer de massa, pois o objetivo dela é vender o máximo possível, e estes produtos tem, quase que obrigatoriamente, terem seus prazos de validade breves, a fim de que a sociedade tenha a necessidade de substituí-los com brevidade. Para que seja produzido um volume tão alto de produtos (des)necessários à população,estamos todos pagando um altíssimo preço, pois estão sendo devastadas áreas enormes de floresta, águas, ar e solo  estão sendo poluídos e principalmente os recursos naturais renováveis que estão sendo explorados à exaustão. Diante deste cenário surge um conjunto de possibilidades de mudança e entre elas figura de forma “avant garde” o consumo sustentável, ele é a grande diferença entre consumir de forma supérflua e consumir de forma consciente, esta consciência transita pelo ato do cidadão consumir, pela forma que o produto foi manufaturado, pela extração da matéria prima, pela veiculação na mídia ou seja, estão todos inseridos neste processo, os agentes diretos e indiretos.

Quando se faz a relação entre consumo consciente ou sustentável e cidadania, obtém-se um agente vital, a sociedade civil. Este ator é o responsável pela mudança, pois dele emana a necessidade de transformações, quer seja manifestando seus anseios nas ruas, quer seja pressionando instituições governamentais ou privadas. Acredito que a participação social além de um direito, é um dever de cada cidadão. Podemos perceber que ao longo da nossa história esta participação foi sendo “aprimorada” e “ sistematizada” afim de que realmente fosse existente.

¹ Consumo Sustentável, Manual de Educação – pg 14
² Definição pelo Dicionário da Língua Portuguesa Houaiss - 2009
³ Definição pelo Dicionário da Língua Portuguesa Houaiss – 2009
4 Ministério do Meio Ambiente http://www.mma.gov.br