Globalização
e Saúde
Claiton Agnaldo Ribeiro Santos
“Vivemos
num mundo confuso e confusamente percebido. Haveria nisto um paradoxo pedindo
uma explicação? De um lado, é abusivamente mencionado o extraordinário
progresso das ciências e das técnicas, das quais um dos frutos são os novos
materiais artificiais que autorizam a precisão e a intencionalidade. De outro
lado, há, também, referência obrigatória à aceleração contemporânea e todas as
vertigens que cria, a começar pela própria velocidade. Todos esses, porém, são
dados de um mundo físico fabricado pelo homem, cuja utilização, aliás, permite
que o mundo se torne esse mundo confuso e confusamente percebido. Explicações
mecanicistas são, todavia, insuficientes.
E a
maneira como, sobre essa base material, se produz a história humana que é a
verdadeira responsável pela criação da torre de babel em que vive a nossa era
globalizada.”
SANTOS, Milton
No livro Globalização: As consequências humanas, do escritor e sociólogo polonês Zygmunt
Bauman há um conceito de globalização como
a ordem do dia, algo que impacta a todos de maneira igual, sendo que
para alguns é motivo real para felicidade, para outros um infortúnio. Porém, por
trás deste processo irreversível há muito mais do que pode o olho ver. Há
evidentemente uma polarização cultural, financeira e ideológica, ele cita por
exemplo o processo paradoxal da globalização: “A globalização tanto divide como
une; divide enquanto une” (BAUMAN, 1999, p. 8).Bauman, ainda menciona e compara
a criação dos mapas(como uma espécie de batalha para reorganizar o espaço e de
controle) pelos poderes modernos ao modelo Panóptico concebido por Michel
Foucalt, em que o filósofo fala sobre a criação de um espaço artificial com o
objetivo de monitorar os indivíduos e manipular as relações sociais e a relação
de poder. Os observadores viviam no mesmo espaço do que os supervisionados,
porém em situações opostas. “A visão do primeiro grupo não é obstruída,
enquanto o segundo precisa agir num território de névoa, opaco” (BAUMAN, 1999,
p. 41)
No artigo Globalização e saúde global de Giovanni Berlinguer,
1999, o escritor faz uma análise acerca desta relação entre a globalização e a
questão dos cuidados de equidade e saúde e propõe um outro questionamento: “A
verdadeira pergunta, por isso, não é se a multiplicação das relações
internacionais e a maior independência são um bem ou um mal e se devem ser
favorecidas ou cerceadas. A pergunta é outra: Qual a globalização, para que
fins, em que rumo?”
Em
resposta ele traz alguns apontamentos como por exemplo o entendimento de saúde com
bem-estar individual, como interesse coletivo e como condição essencial de vida
em liberdade. Outro exemplo que advém do processo da globalização, é o fato da
unificação microbiana no mundo, ou seja é o livre trânsito de micro-organismos
de um continente para outro, sem em nenhum momento considerar as diferentes
condições de ambiente, de nutrição, de organização social e cultural, de
presença ou ausência de vetores biológicos das doenças transmissíveis. Houve
portanto, desigualdades epidemiológicas importantes entre o velho e o novo
mundo, observando suas especificidades, cultura, e principalmente sua situação
econômica.
Importante
relembrar que o advento da globalização não é algo que aconteceu nas três
últimas décadas do século XX, ele vem acontecendo desde o século XVI período em
que houve os grandes descobrimentos e expansão das colônias europeias pela América,
Ásia e África, era um momento de expansão econômica em busca de novos
territórios e mercados, também de subjugação dos territórios conquistados. Não
obstante as distâncias percorridas, os colonizadores levaram consigo, sua
cultura, hábitos alimentares e de vestuário, religião e inclusive suas doenças.
No
decorrer dos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX houve um avanço cronológico da
globalização, porém é no final do século XX que se estabelece um processo radical
de globalização, com o final da “Guerra Fria” que culminou na queda do
muro de Berlim (como marco), em 1988. Através deste ato simbólico foi decretado
o encerramento de décadas de disputas econômicas, ideológicas e militares entre
o bloco capitalista, comandado pelos Estados Unidos e o socialista liderado pela
União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Paradoxalmente com o final
da divisão do mundo, em dois territórios políticos, inicia-se um processo de
abertura econômica mundial.
A
partir do final dos anos 90, o processo que até então “respeitava” uma cronologia histórica, de um certo ponto
estável, demonstra um avanço até então nunca percebido, quer seja pelo avanço
das comunicações, quer seja pelo novo modelo de transporte e logística. Há a
privatização da economia e minimização do papel do estado, há mega fusões de
grandes empresas dentro do próprio país e entre países, queda das barreiras
comerciais protecionistas, há a internacionalização das economias e estabelece
uma desigualdade social que fere o walfare
state, uma vez que os países do dito primeiro mundo, submetem as economias
dos países pobres ou em desenvolvimento, é uma prática algoz onde os países
ricos entram com o machado sob o nome de tecnologia, estratégias mercadológicas,
industrialização, know-how, e os
países pobres com a cabeça sob o nome de commodities, empobrecimento da
população, perda da capacidade de autonomia e crescimento. Segundo Paulo
Marchiori Buss, em seu artigo Globalização, pobreza e saúde, “o processo de
globalização atual está produzindo resultados desiguais entre os países e no
interior dos mesmos. Está criando riquezas, mas são demasiados os países e as
pessoas que não participam dos benefícios [...]. Muitos deles vivem no limbo da
economia informal, sem direitos reconhecidos e em países pobres, que subsistem
de forma precária e a margem da economia global. Mesmo nos países com bons
resultados econômicos muitos trabalhadores e comunidades têm sido prejudicados
pelo processo de globalização.”
Não obstante os avanços na medicina e cura para muitas doenças,
o paradoxo estabelecido pela globalização em relação à saúde, é excludente e estratifica a população,
pois ainda que a denominação generalista seja globalização ela está em si muito
distante de sua proposição, haja visto a exclusão de países pobres na aquisição de
tecnologias para o desenvolvimento de antibióticos e vacinas, privatização dos
serviços de saúde e seguridade social e a brusca redução de investimentos
estatais nos programas de saúde.
Na atualidade vivenciamos intensos avanços
referentes às descobertas científicas para a cura de diversas doenças, pois o
advento da globalização trouxe esses avanços como reflexo positivo, uma vez que
integra países, aproximam estudiosos e cientistas, impulsiona o desenvolvimento
de equipamentos mais modernos para que sejam realizadas novas descobertas, novos medicamentos e novo
instrumental cirúrgico/diagnóstico. Em contrapartida a comercialização destes
produtos, têm gerado lucros exorbitantes aos países detentores de capital e tecnologia,
ou seja, países ricos, os quais investem parte do lucro obtido com a venda dos
produtos oriundos de seus laboratórios em novas pesquisas, novos medicamentos,
novos instrumentos...
Hoje percebe-se, na saúde, alguns exemplos que tornaram-se
intrínsecos à globalização como simples vacinas que imunizam populações
inteiras de doenças graves, a cura do câncer em fase inicial e até a
expectativa da cura definitiva desta doença. Isto só tornou-se possível devido
o advento da globalização, uma vez que as informações são transmitidas “in
time” e que cientistas e pesquisadores mantém trocas de tecnologias entre
seus países, porém não há como não mencionar o fato de que os detentores de
patentes de medicamentos, ou seja, os grandes laboratórios estejam, casualmente
concentrados nos países ricos, e os maiores compradores sejam os países pobres;
ou ainda, os medicamentos, o tratamento e os diagnósticos de alta tecnologia
estejam a disposição somente a quem pode pagar muito por eles.
Vejamos então, temos de um lado indústrias farmacêuticas poderosas,
indústrias detentoras de equipamentos diagnósticos de alta tecnologia, bancos e
porque não as telecomunicações, situados na maioria das vezes na Europa e América
do Norte, as quais desenvolvem e vendem seus produtos aos demais países, de
outro lado temos um grupo de países pobres, em desenvolvimento, emergentes ou
outra nomenclatura, caso haja. Esse comércio, como citei anteriormente, gera um
trânsito financeiro absurdamente alto e tem parte dele revertido em novas
pesquisas, e portanto novos produtos, entretanto somente que usufrui dos
benefícios advindos das novas tecnologia, são geralmente as populações dos
países ricos, ou ainda, quem puder pagar por elas no resto do mundo.
Segundo
Jomo Sundaram, secretário-geral adjunto da ONU em citação no livro "Flat
World, Big Gaps" (Um Mundo Plano, Grandes Disparidades, em tradução
livre), “ Houve uma tremenda
liberalização financeira e se pensava que o fluxo de capital iria dos países
ricos aos pobres, mas ocorreu o contrário", citou ainda, “A desigualdade na renda per capita aumentou
em vários países da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento
Econômico) durante essas duas décadas, o que sugere que a desregulação dos
mercados teve como resultado uma maior concentração do poder econômico”.
Concluo
esta resenha temática com a percepção de que a Globalização em relação à Saúde
é boa, porém somente a alguns, pois os “outros” quiçá ouviam falar dela. Ela
fora ao longo das últimas décadas o fator que desencadeou e acentuou grandes
desigualdades sociais e concentração de poder econômico. Encerro com um trecho
da música Nos Barracos da Cidade de Gilberto Gil de 1985:
“Os lucros são
muito grandes e ninguém quer abrir mão
E mesmo uma pequena
parte já seria a solução
Mas a usura dessa
gente já virou um aleijão
Gente estúpida!
Gente hipócrita!”
Referências
Bibliográficas
BAUDOT,
Jacques. Flat World, Big Gaps. Zed Books
Ltd. 2007
BAUMAN,
Zygmunt. Globalização: As conseqüências
humanas. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor. 1999.
BERLINGUER,
Giovanni. do artigo Globalização e saúde
global. Scielo. 1999
BUSS,
Paulo Marchiori. Do artigo Globalização, pobreza e saúde.
Ciênc. Saúde Coletiva. Scielo. Vol.12. nº6. Rio de Janeiro. Nov./Dec. 2007
SANTOS,
Milton. Por uma outra globalização, do
pensamento único à consciência universal. 6ª edição. Editora Record. Rio de
Janeiro. 2001
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