“A Árvore Era uma vez um grão de onde cresceu uma árvore, que foi
abatida por um lenhador e cortada numa serração.Um marceneiro trabalhou-a e
entregou-a a um vendedor de móveis. O móvel foi decorar um apartamento, e mais
tarde deitaram-no fora. Foi apanhado por outras pessoas, que o venderam numa
feira. O móvel estava lá no adeleiro, e então no adeleiro foi comprado barato
e, finalmente houve quem o partisse para fazer lenha. O móvel transformou-se em
chama, fumo e cinzas. Eu quero ter o direito de refletir sobre esta história,
sobre o grão que se transforma em árvore que se torna móvel e acaba no fogo,
sem ser lenhador, marceneiro, vendedor, que não veem senão um segmento da
história.”
Edgar Morin
A citação acima de Edgar Morin, nos desvela uma triste realidade, a falta de consciência com o meio ambiente, e forma com que ele é tratado, ou seja, algo que sempre está a disposição de todos, como se fosse uma grande dispensa.
A partir desta citação
veremos como se dá a gestão ambiental ( ou não ). Em princípio temos que mudar
a forma de relação com o meio ambiente. Comecemos pela expressão “recurso
natural”, a qual deve ser abolida; uma vez que, se estamos interrompendo o
processo natural que o meio ambiente tem, em si, de renovar-se, não temos,
então, o “recurso natural” a disposição sempre, pois nossas intervenções neste
processo, quer sejam pelo desmatamento, pela má gestão de resíduos sólidos,
pelo desperdício, quer seja pelo formato de consumo, implicam de forma direta
na não reposição dos tais recursos, haja vista ser este processo de renovação,
cíclico.
A expressão “recurso
natural” surgiu pela primeira vez na década 1970, por E.F. Schumacher no seu
livro intitulado Small is Beautiful, e
ao longo das últimas quatro décadas vem perdendo seu sentido, pois eram tidos
como elementos da natureza que são úteis ao homem no processo de
desenvolvimento da civilização, sobrevivência e conforto da sociedade em geral
( E. F. Schumacher/70 ). Não importa simplesmente classifica-los em renováveis,
limitados, potencialmente renováveis ou não renováveis, uma vez que não há uma
sensibilização real nas sociedades, a fim de impactá-las para uma gestão responsável
destes recursos.
Não bastasse a falta de
consciência individual e institucional privada, os gestores, em todas as
esferas de governamentais, ainda não tem um olhar adequado e direcionado para o
meio ambiente e seus correlacionamentos com a sociedade. Quando se fala em
gestão ambiental é necessário que nosso discurso produza eco e impacto,
principalmente no formato de consumo atual, pois há uma
transformação e inversão no consumo dos bens, que num determinado momento eram
de subsistência, ou seja, para
manutenção básica das necessidades diárias e em outro, na atualidade, torna-se
um consumo voraz de coisas que não precisamos( por necessidade básica ),
banalizando esta prática mercantil. Este consumismo vai muito além do ato de
comprar supérfluos, pois ele é
excludente, extratificador e gerador de desigualdades sociais quase sem
precedentes históricos. A sociedade de consumo impulsiona os indivíduos a
comprarem mais e mais com pretextos de aceitação e inclusão nos mais diversos
grupos sociais. Para suprir esta demanda crescente de consumo, a indústria
investe cada vez mais em tecnologias para produção de produtos em massa, ou
posso dizer de massa, pois o objetivo dela é vender o máximo possível, e estes
produtos tem, quase que obrigatoriamente, que terem seus prazos de validade
breves, a fim de que a sociedade tenha a necessidade de substituí-los com
brevidade. Para que seja produzido um volume tão alto de produtos (des)necessários
à população, estamos todos pagando um altíssimo preço, pois estão sendo
devastadas áreas enormes de floresta, águas, ar e solo. Os tais “recursos naturais” renováveis estão sendo explorados à exaustão. Diante
deste cenário surge um conjunto de possibilidades de mudança e entre elas
figura de forma “avant garde” o
consumo sustentável, ele é a grande diferença entre consumir de forma supérflua
e consumir de forma consciente, esta consciência transita pelo ato do cidadão
consumir, pela forma que o produto foi manufaturado, pela extração da matéria
prima, pela veiculação na mídia, ou seja, estão todos inseridos neste processo,
os agentes diretos e indiretos.
Quero,
portanto, voltar a citação de Edgar Morin a fim de lembrar que gestão ambiental
é, obrigatoriamente, a relação que se faz com o meio ambiente. Desde a
semeadura até a colheita, do manejo e respeito com o meio e suas espécies até a
forma de consumir. A partir desta relação entre consumo consciente ou
sustentável e cidadania, obtém-se um agente vital, a sociedade civil. Este ator
é o responsável pela mudança, pois dele emana a necessidade de transformações,
quer seja manifestando seus anseios nas ruas, quer seja pressionando
instituições governamentais ou privadas. Acredito
que a participação social além de um direito, é um dever de cada cidadão. Percebemos
que ao longo da história, esta
participação foi sendo “aprimorada” e “ sistematizada” afim de que realmente
fosse existente.
Talvez mude a lógica do lenhador abater árvores para obter,
no final do processo, como objeto final o simples calor do fogo.














