sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

REFLEXÃO: "NÃO HÁ SABER MAIOR OU SABER MENOR. EXISTEM SABERES DIFERENTES."Paulo Freire

"Em um largo rio, de difícil travessia, havia um barqueiro que atravessava as pessoas de um lado para outro. Em uma das viagens, iam um advogado e uma professora. Como quem gosta de falar muito, o advogado pergunta ao barqueiro:  Companheiro, você entende de leis? Não, respondeu o barqueiro.
E o advogado compadecido: É pena, você perdeu a metade da vida.
A professora muito social entra na conversa: Seu barqueiro, você sabe ler e escrever?
Também não, respondeu o barqueiro.
Que pena! Condói-se a mestra. Você perdeu metade de sua vida.
Nisso chega uma onda bastante forte e vira o barco. O barqueiro preocupado, pergunta:
Vocês sabem nadar?
Não! Responderam eles rapidamente.
Então é uma pena - Conclui o barqueiro. Vocês perderam toda a vida."
(Autor desconhecido)



Inicio este breve relado acerca das trocas de saberes  compreendido entre os meses de agosto/15 à dezembro/15, nesta cadeira Práticas Integradas em Saúde, parafraseando o autor desconhecido acima: “Então é uma pena, vocês perderam a vida”. Ora, perder a vida parece uma analogia pesadíssima, haja vista, ser ela o dom precioso concedido a todos. Questiono-me quanto de “mestres” e “advogados” há em nós? E quantos “barqueiros” permitimos expressar-se? Nós ensimesmados de saberes acadêmicos e muitos oriundos de excelentes escolas, eles portadores dos saberes empíricos e signatários da experiência que a vida foi lapidando face a face. Durante estes quatro meses de vivência naquele território, observei paradoxos, a luz de minha ignorância, que ia da necessidade premente de habitação digna, melhor situação de saúde... à residências( muitas ) com TV por assinatura, veículos novos... como se fosse demérito àquelas pessoas este patamar.
Quando o Estado, o qual deveria ser o provedor de saúde, habitação, segurança e educação, está ausente. Em quem este território deve depositar sua expectativa, seu planejamento para o amanhã? Sendo que vivenciam hoje a repetição do ontem, há pelo menos sete anos, uma “quimera”, que perpassa ano após ano, de moradia digna com saneamento básico, longe da realidade atual, onde este corre a céu aberto, com ruas simétricas e pavimentadas longe das vielas tortuosas, becos esburacados onde a cada temporada de chuvas os próprios moradores se encarregam de tapá-los com resíduos de construção.
Referente à saúde, a referência é a UESF Nossa Senhora das Graças ( ou seria desgraças? ), espaço onde há mudança de gestão e equipe rotineiramente, escassez de agentes comunitários, falta de entrosamento entre a equipe de trabalho.  O que é imagem e o que é reflexo?  É o território que é violento e desestruturado e a consequência se apresenta na UESF ou o contrário?
Não obstante as agruras e dificuldades que o território Nossa Senhora das Graças enfrenta diariamente, é possível identificar um espaço de produção de vida, de esperança, de solidariedade, onde muitos acreditam e empreendem num futuro melhor, com mais educação, dignidade e cidadania exemplo disso é a Creche comunitária Casa de Nazaré – Núcleo São Francisco, um espaço digno, organizado, provedor de trocas de saberes.
Diante das vivências, acredito que há necessidade de uma ausculta que privilegie os moradores do território, onde os “advogados e mestres” do Poder Público incluam na agenda uma pauta real do  Programa Integrado Socioambiental (Pisa) da Prefeitura de Porto Alegre, discussões que incluam os “barqueiros” do território Nossa Senhora das Graças.

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