quinta-feira, 28 de novembro de 2013

TDAH ou a medicalização do futuro?


TDAH ou a medicalização do futuro?




Indicado como primeira escolha no tratamento do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), o metilfenidato é o princípio ativo da Ritalina e do Concerta, nomes comerciais destes medicamentos. O metilfenidato é um estimulante do sistema nervoso central, amplamente utilizado como instrumento de melhoria do desempenho cognitivo de crianças e adolescentes, sendo comumente chamado de “droga da obediência”.
No Brasil, o metilfenidato foi aprovado em 1998 para o tratamento do TDAH em crianças a partir de seis anos de idade e também  no tratamento da narcolepsia em adultos.
Há meses atrás houve um desabastecimento de Metilfenidato nas farmácias brasileiras, durante o período escolar, não foi surpresa o alvoroço, para não dizer desespero, causado não nas crianças e adolescentes, mas nos pais.
Lembro-me da época de criança quando subíamos em árvores, brincávamos de pega-pega, jogávamos futebol na rua, tomávamos banho de chuva descalços, jogávamos pião e por aí vai... estou falando de mais ou menos uns 30 ou 40 anos atrás, é fato que haviam adversidades, quer financeiras em virtude do sobe e desce da balança econômica nacional, quer por eventos adversos de saúde.
Conquistamos um patamar financeiro invejável a muitos países, melhoramos as taxas de morbimortalidade infantil, diminuímos a taxa de desnutrição na primeira infância, temos o menor número absoluto de pessoas na faixa de probreza. Não obstante as melhorias alcançadas, em muitos casos, perdemos o contato real com nossas crianças, perdemos gradativamente a capacidade de ver e ouvi-las, normalmente entregamos nossas crianças aos cuidados de outros desde a tenra idade, pois no período posterior a licença maternidade, por questões óbvias, o bebê é entregue à “escolinha”, depois num turno “escolinha” e noutro escola de educação infantil e assim vais até o ensino médio. Portanto o tempo dispensado aos filhos é cada dia menor, pois há uma colisão de horários, quando os filhos tem algum tempo ocioso os pais estão trabalhando ou estudando e ao que parece o tempo comum é o do sono, quando todos estão dormindo na mesma casa. Não há, portanto,  tempo para acampar, pescar, atividade física ou simplesmente irem juntos ao cinema, teatro.
Diante desta situação algumas crianças e adolescentes tornaram-se mais agitadas, menos obedientes, mais impetuosas, parece que ávidas de algo. Neste momento, para a salvação dos pais, surge a droga mágica e milagrosa chamada Metilfenidato, ela não subirá em árvores, não tomará banho de chuva, não se arriscará, não será impetuosa nem desobediente, mas sim será medianamente tranqüila, dentro dos padrões médios de aceitação, porém veja alguns riscos como segue:
“A Agência Européia de Medicamentos (EMA), através do Comittee for Medicinal Products for Human Use reavaliou em 2009 a relação do uso do metilfenidato com o aumento de riscos cardiovasculares  e cerebrovasculares, além de transtornos psiquiátricos e recomendou aos médicos maiores cuidados no diagnóstico dos pacientes e nos tratamentos de longa duração. O relatório final destacou que o tratamento não está indicado para todas as crianças com diagnóstico de TDAH e a decisão para uso do medicamento deve ser baseada em cuidadosa avaliação da gravidade e cronicidade dos sintomas da criança em relação à sua idade.
Aqui no Brasil, o Centro de Vigilância Sanitária da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo avaliou 553 notificações de suspeitas de reações adversas associadas ao uso do metilfenidato, recebidas no período de dezembro de 2004 a junho de 2013 e a análise das causas  destes relatos indicou:
a) O uso indevido de metilfenidato em crianças menores de 06 anos: faixa etária para a qual o uso está expressamente contraindicado em bula. As reações adversas relatadas incluíram sonolência, lentidão de movimentos e atraso no desenvolvimento.
b) Em 11% dos relatos analisados observou-se a prescrição para indicações não aprovadas pela Anvisa, como depressão, ansiedade, autismo infantil, ideação suicida entre outras condições.
c) Associação entre o uso do medicamento e o aparecimento de reações adversas graves, com destaque para os eventos cardiovasculares (37,8%) como taquicardia e hipertensão, transtornos psiquiátricos (36%) como depressão, psicose e dependência, além de distúrbios do sistema neurológico como discinesia, espasmos e contrações musculares involuntárias.
d) Na faixa etária de 14 a 64 anos os eventos graves envolveram acidente vascular encefálico, instabilidade emocional, depressão, pânico, hemiplegia, espasmos, psicose e tentativa de suicídio.
e) O uso do metilfenidato pode ter contribuído para o óbito de cinco pacientes em tratamento, considerando-se que o medicamento pode causar ou agravar distúrbios psiquiátricos como depressão e ideação suicida.
f) Uso em idosos maiores de 70 anos: embora a bula dos medicamentos com metilfenidato aprovada no Brasil não faça referência ao uso nessa faixa etária, as agências reguladoras internacionais não recomendam sua prescrição em maiores de 65 anos.

Alem dos efeitos citados acima, é comum a perda do apetite, a insônia, aumento da agitação, dores abdominais, perda de peso e diminuição da estatura em crianças que fazem uso deste medicamento.”
Meu questionamento TDAH ou a medicalização do futuro é em virtude de que talvez estejamos “podando” a capacidade inventiva e inovadora destas crianças, tirando delas as possibilidades de experimentarem-se e criarem novos saberes, a partir de suas vivências. Não é possível tornar uma geração inteira em pessoas “obedientes” aos anseios da sociedade moderna. Acredito estejamos inseridos num tempo realmente diferente ao de 30/40 anos atrás, haja vista a própria globalização. Nossas crianças tem uma chuva de informação diariamente, porém se faz necessário a justa medida, onde o mediador é a orientação familiar, caso contrário estaremos criando uma situação paradoxal, pois de uma lado estaremos minimizando transtornos de atenção, “acalmando” crianças, porém por outro estaremos fragilizando as possibilidades de futuro, como afirma a Dra. Maria Aparecida  Moysés, em entrevista ao Portal Unicamp em 05/08/2013.
“Segundo entrevista concedida ao Portal Unicamp pela especialista no assunto, Dra Maria Aparecida A Moysés, pediatra e professora titular do departamento de pediatria da Unicamp, o uso de metilfenidato pode causar dependência química, e é classificado como um narcótico pela Drug Enforcement Administration. Segundo ela, os riscos descritos acima seriam suficientes para não indicar esta substância no tratamento da TDAH.

Um enfoque interessante dado pela pediatra é que o uso de metilfenidato em crianças hiperativas que são muito questionadoras, estaria levando a um comprometimento da capacidade de desenvolvimento da humanidade, uma vez que são elas,  através de seu modo de ser questionador, com seus sonhos e utopias que vão gerar adultos capazes de impulsionar  a busca por um mundo melhor”

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