domingo, 18 de maio de 2014


Gentrificação, o que é isso?

A palavra gentrificação, forma aportuguesada do inglês gentrification, tem sido vista no noticiário com frequência ainda pequena, mas crescente, e parece a caminho de se firmar em nosso vocabulário.
O principal mérito do substantivo gentrificação – ato ou efeito de gentrificar, outro vocábulo emergente, também importado do inglês – é o de nomear de forma sucinta um fenômeno complexo. A tradução “enobrecimento urbano”, favorecida por alguns estudiosos, precisa de duas palavras para dar o mesmo recado.
Na definição do Aulete, que largou na frente entre os grandes dicionários brasileiros no registro da palavra, gentrificação é “processo de recuperação do valor imobiliário e de revitalização de região central da cidade após período de degradação; enobrecimento de locais anteriormente populares [Processo criticado por especialistas em planejamento urbano e urbanismo.]”
A definição é competente, embora a referência às áreas centrais das cidades, onde o fenômeno é mais frequente, possa dar a impressão errônea de que a gentrificação se limita a elas. Chega ao luxo de registrar de passagem o que o processo tem de controverso, com seus prós e seus contras: investimento em infra-estrutura, revitalização econômica e redução da criminalidade costumam vir acompanhados de grande valorização dos imóveis, aumento do custo de vida e expulsão de parte dos moradores antigos para vizinhanças distantes.
O verbo inglês to gentrify é derivado de gentry, “nobreza, fidalguia”, uma velha palavra oriunda, via francês, do latim gentilis, “da mesma família ou raça”. Nosso vocábulo gentil tem a mesma raiz e, antes de se firmar com o sentido de “delicado, elegante, fino”, queria dizer “fidalgo, de boa linhagem”. A pouco usada palavra gentil-homem (do francês gentilhomme), isto é, cavalheiro, guarda vivo tal sentido.
Informa o dicionário Oxford que desde o século XIX o adjetivo gentrified era usado para se referir a pessoas que, tendo origem humilde, haviam subido na vida, como se diz. Mas foi só nos anos 1960 que a palavra gentrification ganhou, inicialmente no meio acadêmico, a acepção urbanística que importamos.
Este processo, que não é nenhum pouco diferente da higienização ocorrida no início do século passado, trás à luz ,descaradamente, a exclusão de moradores que fizeram a história de seus bairros. Muito bem citado no texto da RADIS, quando menciona: Modernização não é desenvolvimento urbano, ou seja a gentrificação serve aos interesses do capital, é como se tivéssemos o próprio Pereira Passos(RJ 1903) vivo, ditando regras. 
No fórum passado ( Tópicos Integradores em Saúde Coletiva/UFRGS ) exemplifiquei com a av. Troco, neste trago a av. Nilo Peçanha leiam a história do bairro Três Figueiras:
TRÊS FIGUEIRAS 

A região onde se iniciou o bairro era, originalmente, de chácaras ocupadas por negros alforriados, que construíram suas casas com pouquíssima infra-estrutura, mas 
com um desenvolvimento de seu culto à religião africana.
Polêmico assunto instaurado na mídia em 2005, situa-se no bairro um dos últimos quilombos na cidade de Porto Alegre, o da “Família Silva”, sendo objeto de um laudo histórico-antropológico, sob a orientação da Fundação Cultural Palmares que, por essa ótica, reconhece a identidade afro-brasileira e do direito ao território, que teria sido ocupado há mais de setenta anos. Com o crescimento populacional e o desenvolvimento das áreas próximas ao Centro, muitas instituições, na urgência de expansão, deslocaram-se para regiões mais afastadas, como o Colégio Anchieta. Fundado em 1890 pelos jesuítas, teve seu inicio na rua Duque de Caxias, mas com o aumento significativo do número de alunos, houve a necessidade da ampliação de suas instalações, o que era inviável na região central. Assim, em 11 de novembro de 1967, inaugura-se no bairro Três Figueiras a nova sede, junto à av. Nilo Peçanha. Outra tradicional escola que se deslocou para o bairro foi o Colégio Farroupilha, fundado pela Associação Beneficente Alemã, e primeiramente localizado na Rua Senhor dos Passos desde 1886, passando em 1895 para sede própria na Av. Alberto Bins, com o crescimento do número de matriculas, foi necessária sua ampliação, e a opção foi a aquisição de uma chácara no ano de 1928, que veio sediar a escola. 
Bairro caracteristicamente residencial, o Três Figueiras tem grande circulação de veículos não só em função dessas grandes escolas, mas por ser um dos caminhos para o Shopping Iguatemi, localizado próximo à divisa com o bairro Passo d’Areia.
 

Referências bibliográficas:
 

SANTOS, Irene (org.). Negro em preto e branco: história fotográfica da população
 
negra de Porto Alegre. Porto Alegre. Ed: Prefeitura de Porto Alegre/Funproarte, 2005.
 
p. 36-41.
Imaginem a cena de uma carroça passando em frente ao Colégio Anchieta ou ainda um carroceiro entrando no Shopping Iguatemi para coletar resíduos, Heim Heim, não pode né, nem a carroça e tampouco o carroceiro.
E tem mais, já ouviram falar na vila Keddie? Olhem a inusitada e bem situada localização:
A vila Keddie localizada na Av. Nilo Peçanha, entre os bairros Três Figueiras e Boa Vista. Na verdade, a Vila Keddie é a única favela (mesmo sendo apenas um beco) de POA que se localiza entre os bairros de classe alta. As outras vilinhas da "área nobre" da cidade ficam mais próximas aos bairros antigos e às grandes avenidas.
Como se pode ver na imagem, a vila percorre um beco junto ao muro do Country Club (clube de golfe), e é quase oculta pelas árvores. Localiza-se ao lado da concessionária Savarauto, da Mercedes-Benz, na frente de um Mc Donalds, e a uma quadra do Colégio Anchieta, um dos mais tradicionais colégios privados da cidade.
Fonte: blog Essa Metamorfose Ambulante em 10/03/08
**** Quisera eu um dia poder ver um desenvolvimento urbano que acontecesse de dentro para fora e de baixo para cima e outorgasse aos munícipes paz e voz e, ainda, co-habitassem harmonicamente todos em igualdade de direitos ****
Claiton Santos


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